No início do século XXI, o estado de Minas Gerais, com sua vasta extensão territorial, apresentava um panorama científico marcado por significativas disparidades regionais. Enquanto alguns grandes centros urbanos concentravam programas de pós-graduação consolidados, um número expressivo de pesquisadores altamente qualificados e estudantes promissores encontrava-se distribuído por diversas regiões do interior. Estes talentos, muitas vezes atuando em instituições de ensino superior (IES) mais jovens ou geograficamente isoladas, careciam de oportunidades locais para formação avançada e desenvolvimento de pesquisa em nível de mestrado e doutorado. Este cenário de concentração de recursos e oportunidades representava um desafio sistêmico para o desenvolvimento científico equitativo do estado, limitando o potencial de vastas áreas e contribuindo para a evasão de talentos para os grandes centros.
Em resposta a este desafio, um movimento colaborativo fundamental tomou forma. Em 2009, durante o XXIII Encontro Regional da Sociedade Brasileira de Química (SBQ-MG) em Juiz de Fora, foi fundada a Rede Mineira de Química (RQ-MG). A criação da RQ-MG foi um marco, estabelecendo uma plataforma com objetivos claros: integrar pesquisadores de todo o estado, mitigar as distorções regionais e fomentar o desenvolvimento de projetos de pesquisa colaborativos de alta qualidade.
Mais do que uma simples rede de contatos, a RQ-MG operou como um corpo estratégico proativo. Seus membros realizaram um diagnóstico preciso da situação da química no estado, identificando a existência de um grande contingente de pesquisadores com comprovada capacidade de atuação, mas que, por estarem geograficamente dispersos, não possuíam a massa crítica necessária para viabilizar a criação de programas de pós-graduação independentes em suas respectivas instituições. A gênese do PPGMQ-MG, portanto, não foi um evento espontâneo ou uma diretiva externa, mas o resultado direto de uma análise estratégica e de uma ação coletiva liderada pela própria comunidade científica. A rede identificou um problema sistêmico — o talento geograficamente isolado — e concebeu uma solução concreta e inovadora para resolvê-lo, demonstrando um nível sofisticado de planejamento e ação comunitária que viria a transformar a infraestrutura científica do estado.
A idealização do Programa de Pós-graduação Multicêntrico em Química de Minas Gerais (PPGMQ-MG) foi um processo meticuloso de construção coletiva. As discussões formais para a sua criação foram iniciadas ainda em 2011, com a formação de um grupo de trabalho dedicado no âmbito da RQ-MG. Ao longo de 2012 e dos primeiros meses de 2013, este grupo promoveu uma série de reuniões intensivas, que contaram com a participação ativa de representantes de todas as principais universidades federais do estado, incluindo UFMG, UFJF, UFSJ, UFV, UFOP, UFTM, UFU, UFVJM, UNIFAL, UNIFEI e UNIMONTES. Essa ampla representatividade garantiu que a proposta fosse construída sobre um sólido consenso e um forte espírito colaborativo.
O ápice desse esforço conjunto foi a elaboração da Proposta de Cursos Novos (APCN), um documento detalhado que delineava a estrutura, os objetivos e o funcionamento do programa de mestrado e doutorado. A velocidade com que este complexo acordo interinstitucional foi alcançado é notável. A capacidade de alinhar currículos, governança e recursos entre mais de dez universidades autônomas em um período relativamente curto de dois a três anos evidencia uma liderança eficaz, uma visão compartilhada e um compromisso profundo de todas as partes, que superaram os tradicionais obstáculos burocráticos em prol de um objetivo comum e urgente.
Com a proposta consolidada, o passo seguinte foi buscar o reconhecimento oficial. Em maio de 2013, a APCN foi formalmente submetida à avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a agência federal responsável pela regulação e fomento da pós-graduação no Brasil.
O resultado foi um sucesso retumbante. Em dezembro de 2013, a CAPES aprovou a criação do PPGMQ-MG, reconhecendo simultaneamente os cursos de Mestrado e Doutorado em Química. Esta aprovação marcou o nascimento oficial do programa. Demonstrando o ímpeto e a preparação das instituições envolvidas, as atividades foram iniciadas de forma imediata, com o lançamento do primeiro edital de seleção já em janeiro de 2014. Em menos de dois anos desde o início das discussões formais, o PPGMQ-MG já era uma realidade, pronto para começar a transformar o cenário da pós-graduação em Química em Minas Gerais.
O PPGMQ-MG foi concebido com uma arquitetura institucional pioneira, que se tornou referência para outros programas multicêntricos no Brasil. Sua estrutura baseia-se na colaboração entre dois tipos de instituições com papéis distintos e complementares:
o Instituições Colaboradoras: As instituições Colaboradoras ou de Apoio, são IES que já possuíam programas de pós-graduação em Química consolidados, com cursos de mestrado e doutorado reconhecidos pela CAPES. A sua missão é "nuclear" o programa, fornecendo a estrutura acadêmica e administrativa, o selo de qualidade e o acesso a instalações de pesquisa avançada e disciplinas complementares. As três instituições fundadoras nesta categoria são a Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
o Instituições Associadas: São as IES que, no momento da criação do programa, não dispunham de cursos de mestrado e/ou doutorado em Química próprios. Elas constituem o cerne da missão de interiorização do programa, sendo o local principal onde os estudantes se matriculam e desenvolvem suas pesquisas sob a supervisão de docentes locais. As instituições associadas fundadoras foram a Universidade Federal de Lavras (UFLA), a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e a Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI).
Este modelo é fundamentalmente simbiótico. As instituições colaboradoras oferecem o "arcabouço" acadêmico e a credibilidade exigidos pela CAPES, enquanto as associadas fornecem a capilaridade, o corpo docente distribuído, os discentes e o impacto regional que são a razão de ser do programa. Essa interdependência cria uma dinâmica de poder equilibrada, garantindo que todas as instituições sejam parceiras vitais para o sucesso coletivo.
O dinamismo do programa ficou evidente com sua rápida expansão. Em 2015, a rede foi significativamente fortalecida com a adesão de três novas e importantes instituições como Associadas: a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG). Essa expansão ampliou ainda mais o alcance geográfico e a capacidade de pesquisa do PPGMQ-MG, consolidando sua presença em praticamente todas as macrorregiões do estado.
A sustentabilidade de uma rede tão complexa depende de uma governança robusta e democrática. O PPGMQ-MG é administrado por um Colegiado Geral, seu órgão deliberativo máximo, e por Colegiados Locais em cada instituição participante, que atuam como órgãos executivos locais.
Um elemento central que comprova o compromisso do programa com a governança compartilhada é a rotatividade da sua Coordenação Geral. Esta prática, prevista no regimento do programa, que estipula a eleição do coordenador por seus pares , evita a concentração de poder e reforça o sentimento de propriedade coletiva entre todas as IES. Historicamente, a coordenação geral foi exercida inicialmente pelo Prof. Dr. Mauro Vieira de Almeida, da UFJF (período 2014-2018). Posteriormente, a liderança foi transferida para a UFU, sob a gestão da Profa. Dra. Amanda Danuello Pivatto e para a UNIFEI, sob a gestão do Prof. Dr. Frederico Barros de Sousa. Mais recentemente, a coordenação geral foi assumida pelo prof. Dr. Marcos Roberto de Abreu Alves, também da UNIFEI. Essa alternância deliberada de liderança é uma prova tangível do caráter federalista do programa.
Desde sua concepção, o PPGMQ-MG opera com uma missão dupla e interligada. O primeiro pilar é a formação de recursos humanos de alto nível, oferecendo a mestres e doutores um conhecimento abrangente em todas as subáreas da Química e preparando-os para carreiras de sucesso no magistério superior e na pesquisa científica.
O segundo pilar, de igual importância, é a interiorização da pós-graduação. O programa foi explicitamente desenhado para preencher uma lacuna crítica, permitindo que graduados de diversas regiões de Minas Gerais pudessem prosseguir seus estudos avançados sem a necessidade de se deslocarem para os grandes centros. Ao fazer isso, o programa atua diretamente no combate à "fuga de cérebros" regional, fortalecendo os corpos docentes e os núcleos de pesquisa locais e democratizando o acesso à formação científica de excelência. Essa missão transcende a academia, posicionando o programa como um instrumento de desenvolvimento regional e de política social, cujo sucesso se mede não apenas em diplomas e publicações, mas também na sua capacidade de reduzir desigualdades e criar oportunidades em todo o território mineiro.
Além da formação discente, um objetivo central do PPGMQ-MG é o fortalecimento da pesquisa científica em si. O programa foi projetado para estimular grupos de pesquisa nas instituições associadas, muitos dos quais já possuíam boa produtividade, mas careciam do ambiente de pós-graduação para crescer. Ao funcionar em rede, o programa incentiva ativamente a colaboração, o intercâmbio e o compartilhamento de recursos, como equipamentos de grande porte e expertises complementares, entre pesquisadores de todas as instituições participantes. Essa sinergia visa potencializar a formação de recursos humanos e, consequentemente, elevar a produtividade e o impacto da produção científica em Química de todo o estado de Minas Gerais e do país.
A prova mais tangível do sucesso do modelo do PPGMQ-MG veio com a defesa dos primeiros trabalhos de conclusão. Esses marcos acadêmicos são particularmente significativos por terem ocorrido, em sua maioria, nas instituições associadas, validando a premissa central de descentralização da pesquisa de alto nível.
o Primeira Dissertação de Mestrado: O primeiro título conferido pelo programa ocorreu em 25 de fevereiro de 2016, com a defesa de mestrado de Sicele Luciana Abreu Gonçalves na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), uma instituição associada.
o Primeiras Teses de Doutorado: A formação dos primeiros doutores pelo programa também ocorreu de forma descentralizada, um feito notável que demonstrou a maturidade da rede. Entre os marcos iniciais, destacam-se:
- A defesa de Isael Aparecido Rosa na Universidade Federal de Lavras (UFLA), em 18 de dezembro de 2017. Embora tenha sido a terceira defesa de doutorado do programa em nível estadual, foi a primeira realizada na UFLA, consolidando a capacidade da instituição associada de formar pesquisadores em nível de doutorado.
- A defesa de Vinícius Guimarães Nasser no campus de Rio Paranaíba da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em 22 de dezembro de 2022. Este evento foi a primeira defesa de tese do polo da UFV em Rio Paranaíba, um exemplo claro da profunda interiorização e capilaridade alcançadas pelo programa.
O fato de os primeiros mestres e doutores terem sido formados em instituições como UFSJ, UFLA e UFV-Rio Paranaíba é a validação definitiva do modelo. Demonstra que a pesquisa de ponta não estava apenas sendo administrada pelas colaboradoras, mas estava, de fato, sendo produzida e culminando em titulação nas instituições associadas, cumprindo plenamente a missão para a qual o PPGMQ-MG foi criado.
O PPGMQ-MG não apenas foi bem-sucedido em sua implementação, mas também manteve um padrão de qualidade reconhecido nacionalmente. O programa foi lançado já com um sólido Conceito 4 na avaliação da CAPES, uma nota considerada "Bom" e que qualifica um programa para ofertar o doutorado — um feito significativo para uma iniciativa nova e de alta complexidade.
A manutenção deste conceito ao longo dos ciclos de avaliação subsequentes, como o da Avaliação Quadrienal 2017-2020 , atesta a consistência, a gestão robusta e a consolidação do programa dentro do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG). Para uma rede que envolve a coordenação de atividades acadêmicas e administrativas (incluindo o preenchimento de dados na Plataforma Sucupira) em 11 instituições distintas, a manutenção de uma nota 4 não é um feito trivial. Pelo contrário, demonstra uma notável estabilidade, um controle de qualidade eficaz em toda a rede e a capacidade de cumprir os rigorosos padrões da CAPES, solidificando o PPGMQ-MG como uma entidade acadêmica madura e confiável.
A trajetória do Programa de Pós-graduação Multicêntrico em Química de Minas Gerais é um testemunho do poder da colaboração e da visão estratégica. Nascido da necessidade de superar as barreiras geográficas e promover o desenvolvimento científico equitativo, o PPGMQ-MG evoluiu de uma proposta ambiciosa para um modelo de sucesso e referência na educação superior brasileira.
Em pouco mais de uma década, o programa reconfigurou o mapa da pesquisa em Química no estado. Ele não apenas formou uma nova geração de mestres e doutores, mas também fortaleceu grupos de pesquisa, integrou a comunidade acadêmica de Minas Gerais de uma forma sem precedentes e, crucialmente, criou oportunidades de formação de alto nível em regiões onde antes elas não existiam. O legado do PPGMQ-MG é a prova de que a cooperação interinstitucional, quando guiada por um propósito claro e uma governança democrática, pode gerar um impacto profundo e duradouro. Olhando para o futuro, o programa continua comprometido com seus princípios fundadores de colaboração, interiorização e excelência científica, posicionando-se como um ativo vital e perene para o avanço da ciência e da educação em Minas Gerais e no Brasil.